Mesmo que a Sede do clube fosse uma simples saleta.
Relatos e documentos quase apagados pelo tempo, e pela mesquinharia, traduzem o que eram as Assembléias do Corinthians em sua infância. Ocorre que o Corinthians foi a Resistência quando revolucionou o Futebol, devolvendo-o ao Povo, em 1913 - numa época em que essas Assembléias pegavam fogo. Mas, como nos ensina o Professor Plínio Labriola, teve de fazer diversas concessões para ser "aceito" nos bastidores, posto que em campo não haveriam como vencê-lo. Estas concessões foram armadilhas que forçaram o Corinthians a se distanciar desse modelo "anarco-sindicalista", empregando o termo com propriedade, de Assembléias. Foi preciso "organizar" o Clube aos moldes da Liga, da forma como se achava que um Clube "de verdade" teria de ser "organizado".
A partir desse momento o Povo foi cerceado de seus direitos de participação, paulatinamente. Quando o Corinthians conquista o campeonato de 1914 invictamente, seu Timão em campo já não tinha jogadores que pudessem participar dos rumos do Clube com a intensidade de outrora. Não que não quisessem, afinal eram todos sócios com mensalidades em dia, pois se não fossem, não jogariam. Todos tinham de ter um sustento, e trabalhavam duro como operários, marceneiros, etc. Mas não podiam pois os rumos estavam já nas mãos de uma diretoria constituída, e que a ela havia sido delegado todos os poderes do Clube. As Assembléias continuavam a pegar fogo, os presidentes eram tão cobrados, e muitas vezes massacrados, quanto eram no primeiro período da História. Mas ao sócio havia sido, desde já, relegado ao papel de colaborador apaixonado, não mais de agente dos rumos do Clube.
Desta colaboração apaixonada temos o mutirão da Ponte Grande, em 1917, o mutirão da Fazendinha, em 1926 e 27, mas também temos o outro lado da coisa, como no caso do tio de Amílcar Barbuy, que tinha sua concessão do bar da Ponte Grande, e a perdeu porque já havia aquilo que a Liga tanto se esforçou para criar no Corinthians; o jogo de influências. Um diretor qualquer retirou a concessão do tio de Amílcar, e a entregou para um protegido. Isto em 1923, vejam vocês. Amílcar, que havia constuído o Clube desde o início e se enquadrava não apenas no aspecto do agente dos rumos e do colaborador apaixonado, mas no próprio Corinthianismo, à maneira mesma de Manuel Nunes, o Corinthians Encarnado.
O Presidente-Torcedor-Sócio-Diretor de Futebol, Guido Giacominelli, viu seu pupilo se retirar do Clube, e ir jogar no rival, sempre com o Manto Sagrado do Clube dos Mil Povos por baixo daquele pano esquisito.
O Corinthians continuou, mas seus Presidentes sempre tiveram de ser personalistas, desde então. Ernesto Cassano, mesmo o José Tipaldi, Felipe Collona, Alfredo Schürig, José Martins, Manuel Correcher, todos estes fazem parte de uma Era de presidentes que precisavam ser personalistas, ao contrário dos antecessores, que tinham a necessidade de apaziguar Assembléias, garantir o rumo construtivo das discussões, e das decisões.
Em 1933, o Corinthians já está em território Sagrado de São Jorge, já é o mais poliesportivo Clube do País, mas viu o profissionalismo ceifar metade do time, que foi jogar na Italia e garantir seu pé-de-meia.
E, na crise do Futebol, o Corinthianismo prevaleceu, e muitos de hoje em dia ficariam pasmados com o que Francisco Piciocchi e mais duas dúzias de maloqueiros fizeram. Apesar da perfeita e ilibada administração de Schürig, ele teve de se demitir porque o Corinthiano sempre insistiu em participar dos rumos do Clube, muito mais que colaborar apaixonadamente, desde que o Clube surgiu no mundo, na inspiração fulgurante do Cometa. E esta é a principal faceta do Corinthians Paulista.
Esta Era termina justamente com a intervenção, em 1941. Os agentes do estado de excessão praticavam seus desmandos na Soberania do Clube do Povo! O Conselho e a Diretoria são dissolvidas para não haver como o interventor, delegado da diretoria de esportes, vejam só, tomasse de assalto o Clube. Quando uma nova diretoria e um novo Conselho são formados, o personalismo presidencial se faz ainda mais forte. São outros tempos, o profissionalismo já é lei, literalmente. E os Clubes, com seus dirigentes, faziam já o papel que hoje é "desempenhado" pelos empresários chacais e moribundos. E essa coisa de "briga de egos" que vemos hoje principiava a tomar o caráter que vemos hoje.
A Soberania retomada em mãos Corinthianas, com Manoel Domingos Corrêa, e logo Alfredo Ignácio Trindade chega à presidência, intercalando um período com Lourenço Fló Junior.
Depois de Giacominelli e Correcher, é o presidente que mais tempo ocupa o cargo em sequência de mandatos.
Foi ao lado deles um dos mais determinantes e incisivos Presidentes que o Clube do Povo já teve. Era um Torcedor, passional, carismático, um orador incrível, e foi o primeiro a combinar, à sua maneira, torcida com eleição. Em sua Era o Corinthians viveu sua época dourada, a Santíssima Trindade de Cláudio, Luizinho e Baltazar, excursões invictas pelo mundo, e o Território Sagrado de São Jorge foi ampliado. As Assembléias continuavam a pegar fogo, mas agora já se observava os grupos se formarem, e se enfrentarem em torno do poder.
O poder que Trindade associou ao Corinthians Paulista foi seu maior legado, mas também deixou os inimigos do Clube do Povo com medo.
Nestas disputas de poder, Vicente Matheus forma chapa com Wadih Helu de vice, e derrotam Trindade. Mas a briga de egos causou a primeira "traição" da história política do Corinthians Paulista. E Matheus foi derrotado pelo seu próprio "aliado", que insistiria por uma década no poder, superando qualquer outro Presidente até então. E quando mais um estado de exceção assolava o país, gente estranha ao Clube era abraçada por este presidente, que deixou de legado dívidas e alianças traidoras nos bastidores. E, notem, algumas dessas alianças perduram até hoje, como a própria figura em questão, embora seja tão "pouco notada" por muitos Corinthianos conscientes. Mas a Fiel Torcida se organizava, e é dessa época também o nascimento dos Gaviões da Fiel, que reproduziam o começo da História do próprio Corinthians Paulista, sob a benção do próprio Francisco Piciocchi.
Vicente Mateos Valle retoma a presidência após um período drástico de Miguel Martinez, que não segurou a bronca deixada pelo Wadih Retro Helu. E é com Matheus que entendemos definitivamente o que é um "presidente personalista". O Clube do Povo vê o mais brabo jejum, e ao mesmo tempo um crescimento exponencial e inexplicável da Fiel Torcida. Quando o jejum termina, o clube tem um corpo associativo gigantesco - e as Assembléias sempre pegando fogo.
Vem uma crise, e no esteio da crise, a primeira derrocada de Matheus. Waldemar Pires assume, e logo tem de dar um chega pra lá nesse personalismo de Matheus, que ainda acreditava que seria o Presidente.
A presença de um filósofo da Bola, de um sociólogo caído de pára-quedas, de um boleiro envolvido com as boas causas humanas, e deste período de "sabe-se lá o que Waldemar vai conseguir fazer" no Clube, além do período de tentativa de abertura política no país depois de tempos de regressão e ditadura, nasce a Democracia Corinthiana.
O Parque São Jorge fervilhava de gente, e as Assembléias pegavam fogo.
Resumindo a história, de 85 a 93 tivemos o toma-lá-dá-cá dos mesmos grupos que tiraram e puseram os antecessores. Nesse período a figura do sócio ficou depreciada, relegada a um nada político dentro do Clube, a conjuntura social tirava a importância dos clubes sociais nesta cidade, para colocar essa importância dentro de condomínios, e temos o início da globalização no mundo, com o fim da Guerra Fria. A figura do Wadih Retro continuava ali, e cacifou politicamente aquele que veio a ser a personificação da traição inventada por esta mesma figura. A traição ao Povo jamais pode ser perdoada, e vai além, muito além de simples questão de honra ou dignidade.
Nestes 14 anos que passamos sendo vitoriosos em campo, no samba, em quadra, o corpo associativo do Corinthians se tornou raquítico. As Assembléias passaram a ser simples conversas de panelinhas e egos. São estes 14 anos que nos colocam na atual situação, embora o movimento deste corpo associativo tenha sido decisivo em muitos avanços a uma Democracia de fato, como é o caso do mais justo Estatuto de um Clube no Brasil.
Pois bem, chegamos à questão do post, finalmente.
A coisa toda pode ser bem entendida nesta primeira parte do Marcelo, do blogue Vertebrais, e ser expandida em suas considerações nesta segunda parte. E no blogue da Larissa, aqui. E o Samurai, aqui.
O Conselho de Orientação de hoje está constituído pela turma do Wadih Retro. Ainda, Família Corinthiana.
Mas nem tudo está perdido, pois estatutariamente é na Assembléia que tudo irá ficar determinado. O CORI apenas tentou engrupir todo mundo para se safar de um cenário onde esta turma não terá mais chances, nunca, pois permitirá "sangue novo" no Clube. É isso que eles temem, primordialmente.
O primeiro factóide foi a pretensa discussão do artigo 140, que determina que o assunto "estádio" será motivo de deliberação no Conselho. O CORI, que não sabe ainda deliberar, quiçá orientar, apesar de tentar barrar propostas democráticas e "ficar" com a anti-democrática, no que tange o modelo de eleições para dezembro, acabará sendo mal-visto pela Fiel Torcida. E assim deve ser, de fato. Um Conselho de Orientação tem por dever definir os meios adequados para as ações, e o que ele está entendendo por "adequado" não é apenas o que poderia garantir ao seu grupelho uma vitória nas eleições, mas significa um retrocesso, uma verdadeira infâmia, portanto. O presidente do CORI deveria compreender que o Corinthians não precisa e nem merece essa disputa ególatra, que felizmente tende a ser um tiro no próprio pé. Caro Roque, você está queimando o que teria de filme, portanto.
A coisa toda não acaba aqui, e os próximos passos merecem muito mais atenção que a atenção que foi despendida a este "primeiro passo". Um passo retroativo e nocivo, carregado de veneno.
Mas a Assembléia do Corinthians sempre vai pegar fogo.
ACORDA FIEL!!!
VIVA O CORINTHIANS
NOSSO DE CADA DIA!!!