quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Levante Popular


Março de 1913.
Em nossa cidade provinciana, o bairro mais cosmopolita do hemisfério sul na época estava em polvorosa.
Naquele Bom Retiro, ao redor da estação de trem, do Parque Público da cidade provinciana e elitista, perto das escolas politécnica e da farmácia, onde estudavam os futuros engenheiros e aspirantes a médicos, onde se concentrava o comércio e os serviços importantes, para onde corriam tanto os ricos quanto os necessitados, inspirados pela ideologia libertária do protagonismo, o povo havia criado um verdadeiro levante.
Desde muito antes de setembro de 1910 aquela idéia estava nas mentes e nos corações. E das tripas coração: a idéia se concretizou, a utopia se realizou, e naquele momento de 30 de março de 1913 já transcendia o bairro e a própria cidade provinciana.
Mas naquele março de 1913 aquele bairro em polvorosa se esparramava pela cidade e pelo mundo que conhecia, já sinalizando que o mundo desconhecido seria pequeno demais para o tamanho do levante popular.
Até então, o levante popular havia fincado raízes nas Várzeas, território do Futebol popular, e portanto do Futebol de verdade; daqueles que não poderiam, pela condição material e social, se meter no futebolzinho engomadinho e perfumadinho das oligarquias, das assim ditas "boas famílias", ou melhor dizendo, daquelas famílias que concentravam as riquezas que o povo gerava às custas de sofrimento, de negação, de subjugação, de exploração e de martírio dos que trabalhavam mais de quinze horas diárias de segunda a sábado, e tinham o domingo apenas para o divertimento com a família - nas Várzeas.
Era essa gente que estava em polvorosa naquele março de 1913.
Era a lavadeira da Várzea do Carmo, que morava no barraco pendurado à beira do trilho do trem, pertinho da esquina onde se consagrou a lenda de Fundação deste levante popular.
Era o trabalhador braçal, o peão de obra, que carregava saco de areia, de cimento, tijolo, madeira, e construía de fato essa cidade elitista, que tanto lhe custou suor e sangue.
Era o motorneiro de bonde, que via o transporte público ser dividido: havia o bonde para operários, ou seja, para essa gente despossuída que possuía o que interessava à elite: o braço, o sangue, o suor, o trabalho, essa gente que se explorava como se fosse o escravo antes da abolição. Essa elite odiou a abolição, e ainda ressentia com ela, pois não sabia o que fazer se não tivesse quem fizesse por ela. Via também os engomadinhos perfumadinhos sentarem-se nos espaçosos carros privados, que aos poucos tomavam conta das ruas, disputando espaço com o bonde dos operários. Exatamente como acontecia naquele março de 1913, no que se refere ao esporte elitista de então, que o povo tomava pra si em definitivo, através deste gigantesco levante popular.
Era o pintor de paredes, que se aproximava um pouco mais do patrão nas filigranas sociais, mas que mantinha suas raízes, pois era vizinho da lavadeira que morava no barraco, e vizinho do motorneiro que morava num cortiço um pouco mais confortável que o barraco da lavadeira.
Era o dono do armazém e da confeitaria, que fazia os pães que corriam pelas bocas do bairro, que fazia os bolos dos aniversários daquela criançada que nascia aos borbotões e principiava uma das maiores aglomerações populacionais do mundo que veio a ser essa cidade grotesca que continuou elitista.
Era o ferroviário que tratava dos trilhos do trem e que tinha consciência política, e começava a se organizar, às custas de muita borrachada da polícia proto-fascista a serviço dessa oligarquia que ainda dita o que as pessoas tem de pensar e dizer, nessa grotesca e elitista cidade.
Era o operário do cotonifício, da indústria metalúrgica que ainda engatinhava, que aprendia com este ferroviário a se organizar, e a pensar política.
Era o barbeiro do bairro, sempre a par das notícias que chegavam primeiro por ali, pela estação de trem, pelos burburinhos do povo.
Era o estudante da escola germinal, da educação libertária que fundamentou esse levante popular.
O Levante Popular depois, ao longo de sua existência, foi conquistando o coração de plutocratas com menos ranço, mais condizentes com uma ideia de igualdade. Patrões aderiram à causa, depois de firmada, concretizada, disseminada. O Levante existindo nunca mais parou de pulsar. Está no coração de todos nós, e adere contornos tão variados quanto nós somos diferentes, e, conforme a História, a época, a dinâmica social através dos tempos, tão variados quanto às classes, ou os tipos sociais. Era o que encontrávamos nas Arquibancadas até pouco tempo atrás: desde moleque de rua até um patrão, todas as camadas e credos.
Além disso, um pouco antes de março de 1913 foi necessário reconstituir o estatuto. Aquele estatuto de 1910, quem souber do paradeiro, contate a Rádio Coringão, por favor. Este de 1910 foi reescrito em algum momento no tempo muito próximo ao março de 1913, para que o Corinthians pudesse disputar esse torneio. Além disso, David, o centroavante negro do velho Botafogo da rua Paula Souza era barrado no baile. Um negro jogar bola no Velódromo era pedir demais. A mídia e os detratores irão interpretar isso como culpa do Corinthians, é evidente, pois precisam esconder o fato de que se jogasse com um negro no time o Levante não teria sequer a chance de fazer o que fez: enfiar dois pés no peito da oligarquia. Em 1913 um clube de operários não poderia sonhar em brincar com certos tabus, como por exemplo o racismo cru e degradante que a mídia não perdeu até hoje como ranço de seu humor nefasto, como escutar em off, por aí, que Joaquim Barbosa, ministro do judiciário brasileiro, abram aspas, “é negrinho mas é bom”.
Esse estatuto rezava que o Clube não faz distinção de cor, credo ou condição social. Havia brasileiros negros, pardos, brancos, caboclos, junto com italianos, espanhóis, portugueses, ingleses, alemães, polacos, húngaros, turcos, sírios, gregos, judeus, chineses, japoneses. O Clube era a expressão pura do bairro mais cosmopolita do hemisfério na década de 1910: o Bom Retiro, o berço do Levante, um cenário que aos poucos foi sendo aviltado pela oligarquia, reduzido ao funcionamento baseado na lógica simplória mercantilista que finge ser capitalista, mas é feita por gente afidalgada, medieval, com ranço feudal, embora vistam uma purpurinadíssima fantasia liberal. O destino do Bom Retiro foi o mesmo da Bela Vista, do Cambuci, da Barra Funda, do Brás: tornarem-se geograficamente comprimidos e historicamente esquecidos, além de economicamente aviltados, por uma especulação traiçoeira ao estilo da relação empregado e patrão. Campos Elíseos, por exemplo, um bairrozinho satélite do Bom Retiro na época, era o lugar de moradia de muitos barões; o que restou do bairro oligárquico par excellence do início do século vinte, só por estar muito próximo do Povo? Visitem os Campos Elíseos e descubram, ele é o retrato de fato disto que estamos expondo aqui.
Março de 1913 fez muito mais diferença do que a Academia gosta de pensar que tenha feito. Mas o Levante Popular foi de fato popular em 1913, e aquela gente toda fez muito mais História do que o mais apaixonado Corinthiano possa imaginar.
Essa era aquela gente que chamou esse levante de Corinthians Paulista, que conquistou as Várzeas do mundo conhecido e mirava a conquista do mundo desconhecido, onde só entrava gente dita de alto escalão, gente dita oficial, gente engomadinha e perfumadinha.
Em pouco mais de dois anos na ativa, o levante popular chamado Corinthians chegava com os dois pés no peito da oligarquia, o que a deixou extremamente ressentida e desgostosa do mundo conhecido por aquela gente, mas que ela desconhecia pois fazia vista grossa pra não ter que enxergar o mundo real que cerca o mundinho cor-de-rosa onde vive essa oligarquia infeliz ainda hoje.
Março de 1913.
O Clube do Povo, o Levante popular chamado Corinthians, disputava a vaga que se abriu para o campeonato chamado de oficial, que era disputado no campo da oligarquia, o velódromo da matriarca dos Prado que alugava o terreno para os rapazotes engomadinhos e perfumadinhos do clube de elite par excellence, o chamado paulistano, que anos depois, não obstante sua riquissíma condição social, falia e se transmutava em coisas cada vez menos dignas.
Naquele dia 30 de março de 1913 o povo do Bom Retiro subia a colina que hoje é imperceptível, até o lugar que hoje se chama praça Roosevelt.
Foi das primeiras invasões Corinthianas, e ao mesmo tempo a mais importante e formadora. O levante popular alcançava o mundo até então desconhecido. Alcançava e conquistava.
Relatos dos viventes da época, dos jornais, acusam o quanto se ressentiam desse feito os oligarcas: eles não entendiam, e nem poderiam entender pela curteza mental que lhes assola, o que significava aquilo. Torceriam para o adversário do levante, fosse esse adversário quem fosse. Foi nesse momento que a erva daninha espiritual dessa anticorintiania esquizofrênica surgiu.
Março de 1913...
O povo entrou com as duas solas no peito da oligarquia, conquistou por méritos, na bola, em campo, a tão ansiada vaga no campeonato dito oficial, naquele glorioso um a zero contra o união da Lapa, no Velodrómo.
Chegava ao campo engomadinho e perfumadinho o cheiro de suor do povo, o macacão sujo de graxa, a calça rasgada e empoeirada do trabalhador braçal, e as mãos leves que carregavam o fardo do mundo daquelas pretas lavadeiras, verdadeiras Mães do Levante Popular. Aquelas mãos lindas e leves eram pretas, o cheiro de suor é mais forte que o perfuminho da oligarquia. Os dois pés no peito derrubaram aquele corpinho frágil oligarca.
O ressentimento veio em seguida; se retiraram da Liga Paulista de Futebol e fundaram a APEA com apenas três timinhos temerosos de se tornarem saco de pancada do Levante Popular - o que veio a acontecer, porque a História é do Povo.
E esse campeonatinho de três timinhos se tornou, na voz da mídia mainstream, o único campeonato válido. O da Liga? Ah, esse passou a ser menor. Dos pobres, segundo essa mesma mídia achacada pela oligarquia plutocrata. Depois o castelinho de cartas, ou castelinho de jornal carcomido, teve de ceder ao povo, pois a História é do povo; e a Liga Paulista se fundiu com a APEA para ser a Federação Paulista. Mas isso foi um processo, determinado pelas artimanhas elitistas temerosas de perder o espaço para o Povo, posto que o clube que fez acontecer o Futebol foi o Clube do Levante Popular. E essa é uma outra parte da História, que na verdade teima a se repetir sempre.
Pois em 1976 também aconteceu uma gigantesca invasão Corinthiana, a exemplo de Março de 1913, a exemplo de 41 quando o Corinthians invadiu a baixada, enfim, são tantas invasões que poderíamos nos dedicar apenas a falar sobre elas. Aqui porém temos de fazer o recorte que nos propomos; pois essa semana já se principiou a mais nova invasão da História do Levante Popular.
Começou no aeroporto de guarulhos, para o ressentimento dessa gente porcalhona das idéias aflorar. Da festa essa pseudo-gente não poderia fazer nada contra, mas eles têm o poder público achacado no controle, nas mãos: mandaram seu braço armado, a polícia a serviço da oligarquia plutocrata, descer a borracha e gás lacrimogênio, quebrar o aeroporto, para que a mídia pudesse de alguma forma culpar quem? A Fiel Torcida, ou seja, o próprio Levante Popular.
Esse foi mais um dos inúmeros exemplos da esquizofrenia anticorintiana, e se viu muito babaca arrotar asneiras a respeito da Fiel Torcida. Quem fez baderna foi a mão armada do Estado controlado pela oligarquia ressentida, meu Povo! E isso será sempre assim, esse script já começa a não funcionar mais, o uso da mídia para reiterar essas asneiras já passa a não funcionar mais, bando de filhote de madame frankenstein!
Daí temos o exemplo óbvio daquele quase-desconhecido que ninguém nota, a não ser quando fala de CORINTHIANS. E para não ver sua imagem sempre ignorada destruída, esse léo sardinha teve que desdizer o que disse a respeito de rodoviária, enfim, todos nós sabemos do que estamos falando aqui: a anticorintianada não consegue bancar o que fala do Corinthians, ainda que, como bem diz nosso Maestro, esse preconceito anticorintianista esquizofrênico seja tratado por "politicamente correto" nas entrelinhas imundas da mídia capciosamente fascista.
O fato é que Março de 1913 se repete.
Mas dessa vez não é nos altos da colina que desapareceu nessa cidade.
Dessa vez é do outro lado do mundo, para todo o Universo ver.
Para todo o Universo sentir, como um terremoto.
Março de 1913 vive!
Março de 1913 se repete antes de completar seu primeiro século de História!
Alguns meses antes de completar cem anos de aniversário, vemos e sentimos, e fazemos acontecer novamente, o Glorioso Março de 1913.
Coisa tão forte, tão pura, tão magnânima, que nem o marketing oligarca que hoje acachapa o Levante Popular poderia controlar - e nem poderá usar de qualquer forma que não seja comercial, pois o Levante é espiritual, está em outro plano, está no tecido escuro do Universo, e já comanda o mundo.
Eis o CORINTHIANS, o Levante Popular.
Eis Março de 1913.
Eis a Utopia Concretizada.
Eis o Padroeiro Guerreiro sorrindo vitorioso, antes mesmo da vitória. Pois a vitória, a conquista, já chegou. A fortuita vitória ou derrota em campo é apenas um desenrolar que está nas mãos da Fortuna e do Tempo, POR SÃO JORGE!
AQUI É CORINTHIA, i basta!
VIVA O CORINTHIANS NOSSO DE CADA DIA!!!