terça-feira, 3 de abril de 2012

Bataglia, Corinthians!


"Vamos pagar ingresso pra ver o Timão", cantava a Fiel durante as votações. A discussão aqui não será levada apenas para que o Conselheiro, Diretor, Vice-Presidente, Presidente do Corinthians, e todo e qualquer Corinthiano pague seus ingressos. Isso deveria estar estabelecido.
Quando moleque, com meu Pai Gordão, entrei de graça na carteirada. Mas ele só se utilizava de tal expediente quando era jogo muito lotado. E mesmo que naquela época a imensa fila na bilheteria não durasse até o começo de jogo, sempre chegávamos em cima da hora. Não era raro que o Gordão estacionasse seu automóvel portão 23 adentro.
Mas esse paternalismo acabou, não é mesmo?

Entramos na Era do Bizinisse agora. É a lei de oferta e da procura, para a qual Rosemberg gostaria de nos fazer participar. Pois bem; a procura para o jogo do dia 28 de fevereiro, contra o velho quinzinho, foi aquém da desejada. Tivemos pouco mais de seis mil e quinhentos pagantes.
Um valoroso Camarada me explicava então que o Paulistão está fora de moda.
Argumentei com ele. Disse que nesse caso, paga-se menos por uma etiqueta de "segunda mão". Logo, o preço do ingresso tem de ser menor, e no dia 28 teríamos o público que pode pagar quinze reais (sete reais a meia-entrada), ou seja, Arquibancada lotada (pelo menos dez mil pagantes pra mais, ao invés de seis). Chegamos ao barateamento do ingresso (ao menos no Paulistão...).
A "procura" varia conforme a precificação do produto, ou o que isso lá quereria dizer. Barateamento da oferta leva à procura, ou qualquer lógica causal desse tipo.

Mas o preço injusto, mesmo, é o da Laranja e o das Numeradas. Trinta reais na Laranja já é caro, mas o brasileiro está se lambuzando no costume de se diferenciar pelo bolso. Não faz sete anos, o picadinho custava cinco reais no buteco. Hoje, menos de oitão é difícil de achar. Vai comer um picadinho na Paulista, ali o preço é diferenciado. Mas picadinho é muito fora de moda, e dizem que o Paulistão vai nessa toada...
Vamos então diminuir o preço do ingresso no Paulistão, cinqüenta reais a Numerada, e veremos o Paulistão "voltar pra moda".
Pra quem se comoveu com essa coisa de moda, devemos esclarecer que: Corinthians transcende essa coisa; Futebol está longe de participar dessa coisa; Torcida vai a todo e qualquer jogo, sendo extremamente desimportante essa coisa. Hoje, os "fixos", somos em três mil, oscilando pra mais ou pra menos. Há dez anos, éramos o dobro disso. Há vinte, nas épocas das carteiradas do Gordão, éramos vinte mil. O que hoje figura como cadeirinha laranja no Templo Sagrado era
ARQUIBANCADA de cimento. Enfim, o que acontecia que hoje não acontece mais? Saiu de "moda"?

Disseram também que o preço é impagável.
Essa contra-corrente, que desfaz a visão de que o preço é "justo", argumenta não apenas com o que foi dito no parágrafo anterior, mas também se baseia em números. O total arrecadado com os preços altos é menor do que o total arrecadado com preços razoáveis (o que o brasileiro tem que entender é que preço nunca é "bom"), com a "vantagem" (ou dever de toda e qualquer Diretoria do Corinthians?) ainda de termos um público digno das Tradições da Fiel Torcida.

Por isso andam dizendo tanto que existe uma intenção de elitizar.
Daí os adversários destes respondem, reafirmando a lei de oferta e de procura, que num jogo mais procurado o preço vai se tornar fator de "perda de dinheiro"; é num jogo desses que temos que lucrar, dizem.
Há muito tempo que bilheteria deixou de ser a renda principal de um Clube. Mas quando se vê a Fiel Torcida, o pensamento mercadológico aguça. E então vemos 'cronistas' comparando os preços que alguns clubes praticam para chegar a uma renda semelhante a do Corinthians, e temos de frisar o fato de que está lidando com uma grandeza distinta quando se trata de Fiel Torcida.
Assim, diminuindo no papel a Fiel Torcida, o abutre está indo na mesma direção da elitização, cujo primeiro passo é homogenizar esse imaginário que liga Torcedor a marginal, Arquibancada a violência, preço injusto e excludente a simples lei de "oferta e procura" (sem contar que deixar de arrecadar continua sendo péssimo para os negócios, mas mesmo tendo instrumentos para medir a justeza do raciocínio do preço razoável, preferem manter o patamar de preços em moldes elitistas).

Dentre os Feitos e Glórias do SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA, os maiores não são meras conquistas dentro dos quadriláteros, da piscina, em canoas (aliás, ter se tornado o mais completo clube Poliesportivo que se tem notícia na humanidade bem que poderia ser o terceiro maior feito do Clube do Povo...).

O Primeiro é a Revolução Corinthiana de 30 Março de 1913.
Nesta tarde de domingo houve Procissão Popular do Bom Retiro até o campo do Velódromo, e da Consolação até o Bom Retiro, na volta. A cidade que ainda não era monstruosa, parou. Subia para o campo da aristocracia aquele clubinho que era uma saleta, com mesa de ping-pong, cuja gaveta servia de urna nas intempestivas assembléia daquele bando de loucos. Subia para as perfumadas Arquibancadas o cheiro de graxa de êmbolo de motor de trem e de bonde, o cheiro de suor da labuta, o cheiro de bóia-fria da marmita. As dondocas se horrorizam.
Aquele clubinho, porém, tinha um TIMÃO em campo, e ganha com a benção da Deusa Bola o acesso ao campeonato dito "oficial". Tratava-se do Galo Varzeano de sua época. O Corinthians Paulista nasceu sendo o Selecionado Varzeano de Piratininga.
Mas a aristocracia teve furor intestinal ao se imaginar junta daquela gente, e se retirou do campeonato que ela mesma fundou. Cria um "olimpo" de três clubes, a APEA, e faz a imprensa de porta-voz, chamando a Liga Paulista de "liga pobre".
(Observemos que a aristocracia brasileira nunca quis oferta, para não haver procura)

O Corinthians será o Campeão Paulista Invicto de 1914, e será o único a fazer frente ao Torino, em agosto daquele ano (fato que acendeu o pavio da italianada que fundou uma società filodramática e dançante "só dela", e hoje, com a bracciola entalada na garganta, desaprendeu a fazer polenta).
Com dois campeonatos de 'experiência', a aristocracia descobriu que sua fonte de renda, o público nas partidas, era por demais escasso.
Vejam só, havia um clube na cidade que vivia só de renda de público, sem dinheiro de mecenas! Que atrairia um público de verdade ao enfadonho campo aristocrático.
E o Corinthians era um bicão de marca maior. Pretende entrar na festa da aristocracia. Ela sinaliza positivamente. Convence o Corinthians de que precisa se desligar da Liga.
Mas quando o Corinthians bate à porta, solicitando a entrada, a madame lhe responde que irá apenas participar de amistosos em nome da APEA, contra os times dela. Mas que não se preocupasse, pois a renda seria repartida, meio a meio.
Assim, o Corinthians teria renda e sobreviveria.

A madame sabia muito bem disso. Quantos clubes varzeanos não morreram à míngua?
Era a hora esperada de esfacelar aquele clube e depois recolher os despojos. Aliciar seus excelentes jogadores.
O Corinthians Paulista não resistiria àquela rasteira tão bem-dada.

Mas tinha alguma coisa estranha naquilo. Foram passando os meses, cada clubinho de madame dava uma desculpa diferente para adiar o confronto com o Corinthians (o plano era sistemático, observem), o Clube é obrigado a ir fazer um jogo no interior por conta própria pra poder balancear o defasadíssimo caixa, é penalizado pela APEA por isso, mas mesmo assim, todos os jogadores voltavam para o Corinthians.
Era esse imaginário de pertencer à uma Congregação Popular genuína, de um Cosmos mais elevado, que agora já se tornava de fato uma Mentalidade.

Tudo fizeram para neutralizar, ou mesmo reprimir, e dispersar esse bando de louco.
Mas os caras eram bons. Os Gênios do Povo não estavam para brincadeirinhas de salão.
Com a cara e a coragem, como massa de pão que quanto mais bate mais cresce, como azeite tirado da pressão, o Povo Corinthiano resistiu. Nunca dependeu de viabilidade financeira para existir. Sua própria condição de existência, e tudo o que pode ser entendido por existência, consistia numa RESISTÊNCIA.
Portanto, o Segundo feito do Corinthians é concretizar a Resistência Corinthiana de 1915.

O segundo feito é elemento que esteve intrínseco ao primeiro feito, e é também representado pelo próprio Ato de Fundação, com tudo o que lhe envolve.
O segundo feito é também desdobramento do primeiro na re-afirmação do Clube que representa o excluído, mas que tem o papel histórico de agregá-lo e afirmá-lo.
As décadas posteriores aos feitos comprovam o vulto e a dimensão do que surgia.
No final da década de cinquenta foi recolhido um depoimento, de Raimundo de Magalhães, ex-garimpeiro cearense, operário na paulicéia, encontrado na fronteira com a Venezuela, trabalhando os seringais. Foi presenteado com um chaveiro do Corinthians, assentado que já estava num fim de vida, em seu hotel de fronteira.
Poucas coisas explicam tão bem a imensidão do movimento gerado pelos dois grandes feitos do Corinthians.

"Eu era operário e ia de bonde para a Fazendinha. Ia com minha mulher, que a morte levou. Vi quando o CORINTHIANS marcou 103 gols. Vi Teleco ser artilheiro. Vibrei com Brandão, com Roberto, com Idário, com Rosalém e com Cláudio e Luizinho. Assisti Carbone marcar tentos memoráveis. Quando, nos seringais, sozinho, distante dos meus, eu vivia, de tudo isso me recordava. E relembrava, saudoso, o meu CORINTHIANS. Este distintivo, se não for comigo para o túmulo, quero dá-lo a um de meus filhos. Porque eu os ensinei a serem Corinthianos, também. O CORINTHIANS foi o clube que me acolheu, na juventude, oferencendo-me o que eu, como homem pobre, não podia ter: a sua Sede Grandiosa"

FAMÍLIA CORINTHIANA,
O CORINTHIANS É COISA SÉRIA. E É COISA NOSSA.

Já não é mais questão de "manter" os preços, é questão de INCLUSÃO.
Quando o Corinthians realizou o Mutirão da Ponte Grande, outro grande feito derivado dos dois grandes feitos, o fez para ter um campo próprio, onde pudesse subsistir autonomamente nesse meio pantanoso que era a relação com os clubes de elite.
De 1918 até a transferência para a Gloriosa Fazendinha, em 1928, a Ponte Grande foi o esteio do Corinthians Paulista. O Timão tinha desde já seu campo e sua fonte de renda. Começou na Ponte Grande uma hegemonia que durou mais de duas décadas. São Jorge abençoou os feitos ao longo da História desde então (e desde sempre).
O Corinthians é SEDE GRANDIOSA do Povo, não se deixem enganar por leis mercadológicas, que aqui não funcionarão nunca.

AQUI É CORINTHIANS!!!
VIVA O CORINTHIANS NOSSO DE CADA DIA!!!