E temos a dizer, também, que chegamos a um ponto tal que o jogo das eleições no Clube já começa a ser jogado. A oposição se juntou num momento de alerta para a situação. Nesse jogo não existe muitas cartas marcadas, e no Corinthians às vezes não se pode ter certeza de nada. As cartas costumam mudar suas marcas durante o jogo, nestes momentos.
Se aparentemente são estes os dois assuntos principais, além do jogo de semana contra a madame (pensei que as melindro5as tinham gostado do túmulo de Barueri...), há muito mais a se dizer, como sempre haverá.
Pois nem mesmo quando é possível um diálogo, que resulta em tensa tolerância, a coisa vai bem.
E o que aconteceu foi que o moleque escutou as orientações. Expressávamos-nos dentro dos limites impostos, como se fosse um favor, é verdade. Mas quem há de negar a ordem e a segurança numa sociedade de direito?
O acordo estava feito para aquela pequeníssima manifestação. Não avançaríamos os limites devidamente impostos e tolerantemente ofertados.
Mas o moleque que não sabe ouvir orientação não prejudica a si próprio. Prejudica o coletivo.
Éramos uma dúzia, se muito. E o que poderia ter sido uma legítima manifestação – afinal do Portão 23 temos um eco monumental, que só o Templo Sagrado pode proporcionar – e de quebra uma válvula de escape para esta meia dúzia, acabou com uma simples latinha de cerveja (se é que podemos chamar aquilo de cerveja) arremessada sobre um carro que representa um mês de salário de um descompromissado qualquer.
Acabou não, porque depois veio à dispersão pela quebra dos limites impostos e tolerantemente ofertados.
Voltou a reinar o silêncio naquele eco monumental, porque já não sabemos mais aproveitar sequer as possibilidades do que nos são ofertadas para garantir nosso direito de expressão.
Triste não é só tomar borrachada por causa de moleque; os oficiais da lei cumpriram seu papel e fizeram valer o salário que ganham. Fizeram o melhor dos trabalhos; dialogaram e dispersaram. Confiaram até o limite, nos trataram como cidadãos que somos e que mantemos esta sociedade em funcionamento.
Mas o triste é constatar o pior dos pontos; este sim é um jogo de cartas marcadas.
Vai ter sempre alguém vindo de não sei onde pra sabotar. Sob esse escopo, a coisa é um tanto mais feia. Durante algum tempo parecia que esse inimigo oculto se travestia apenas em alienação. Mas isso é conseqüência, apenas.
Qualquer balbúrdia, abutre está a postos. O telefone é seu talher para o deleite da carniça. Mas pousou ali, naquela hora, quase sem querer querendo. É jogo de cartas marcadas. A dispersão estava a caminho. Saiu um blindado, saiu o segundo e no terceiro sobreveio o silêncio.
É quando se está com a energia baixa que a merda acontece. A mera meia dúzia (se tanto) que compareceu ali ao Portão 23 no domingo às 18h foi prova cabal e expressão própria do outro lado da moeda deste jogo de cartas marcadas. O sistema gira mais em cima, e se a numerada VIP agitou uma manifestação que fez o presidente recuar, é ainda mais sinal e imagem deste jogo de cartas marcadas. Enquanto não tiramos as nossas da manga, devemos ao menos identificar as coisas.
Vamos cobrar o treinador de rachão pelo trabalho oscilante? Vamos cobrar descompromissados na rua? Vamos cobrar a diretoria, o presidente? Sim, passou da hora. Agora, toda essa pastasciutta é causada por um elemento apenas, que caminhou lado a lado na história com a alienação – e portanto, com a abutraiada.
Tem quem agencie vagabundo pra morder o filé mignon. Eles aliciam não apenas os responsáveis legais de menores de idade. Eles não apenas jogam pôquer e estão com descompromissados na baladinha. Eles são a chave do jogo de cartas marcadas.
Futebol é público, e tudo o que é público é também político; a História do Corinthians é a maior imagem disto. Agora, Futebol virou máquina de fazer dinheiro sob a máscara do discurso “o Futebol, hoje, é muito caro”.
Todo sistema centraliza o dinheiro. O capital tem de girar a partir de uma mão só. É jogo de cartas marcadas.
Acompanha a cabeça do moleque desde quando o aliciador se aproveita da nobreza de seu guardião responsável, até quando já freqüenta o pôquer e a baladinha. Acompanha a cabeça de qualquer um através da abutraiada. E essa coisa toda perdeu os limites. Mas não perdeu os limites igual latinha arremessada ocasionalmente num veículo blindado. Toda consciência é sabotada cotidianamente.
Pois tudo o que é protestado, neste momento, é mera manutenção do sistema. Observem que tanto o treinador de rachão quanto os descompromissados são conseqüência direta deste sistema. O atual presidente se retirou da manifestação contra ele para averiguar as condições de “sua” máquina; e ele tem até um pouco de “sorte” porque essa máquina de fazer dinheiro que é o Corinthians hoje em dia não pára de gerar receita nem se perder campeonato. Tenebrosa ironia.
Quem tem a grana e faz girar a máquina, porém, não são os clubes. Nem o Corinthians nem qualquer outro clube do mundo, hoje, geram receita para si mesmo.
Quem financia o Futebol? Você acha que é você, torcedor? Não é. Nosso dinheiro não é suficiente pra fazer girar o sistema. Nós somos a parte “fraca” da corda, e seremos estourados. Estamos sendo.
O abutre caminha lado a lado com o chacal. Um embaralha as cartas e o outro distribui. E fomos nós todos quem demos a eles essa liberalidade. Eles apenas “sofisticaram” a coisa toda, durante quarenta, cinqüenta anos; o "espetáculo" agora “é caro”. E a sociedade caiu nessa ladainha feito patinho desavisado.
E não importa a diretoria, não importa o treinador, não importa se existe algum compromisso por parte de jogador. A coisa está engenhosamente articulada pelo capital, a ponto de conseguir sabotar, quase sem querer querendo, uma manifestação de meia dúzia.
Aqueles ‘velhos arcaicos’ do Corinthian Football Club, que morreram (todos) na Primeira Guerra, diziam que o dinheiro acabaria com o Futebol. Há cento e vinte anos, e isso não é lenda. Longe de terem algum viés político (na acepção plena Corinthianista) ou politiqueiro. Eram plenamente amadores. Amavam o Futebol, apenas. Exatamente o mesmo Amor dos Primeiros Corinthianos. O mesmo Ethos Corinthianista. E lá se vão cento e tantos, a coisa permanece no mesmo redemoinho. O dinheiro fez o que fez, sob a anuência incauta. E como é de sua “natureza”, articulou-se e criou sistemas. Mas o dinheiro vive pra si próprio. Tanto que o único verdadeiro tesão no Futebol, hoje, é ganhar dinheiro. Não se enganem mais com palavras descompromissadas ao vento, torcedores.
Mas também já não é mais a Torcida quem garante o funcionamento da máquina, pelo contrário. Ela hoje representa apenas um preço a ser pago para a manutenção da máquina. Um “risco assumido”, do qual se pode inclusive criar “seguros”. A máquina já está em outro funcionamento, e neste setor não existe interferência nem de torcida, nem de sócio de Clube, muito menos dos próprios clubes.
Pobres daqueles que enxergam isso tudo exatamente como abutre e chacal querem, pois esse mercado é simplesmente a sociedade inteira. A mesma sociedade que elege seus corruptos e que acha absurdo emprestar dinheiro para a construção do estádio de Itaquera, mas se cala quando o mesmo banco público empresta seis vezes mais para o oligopólio da comunicação (pra encerrarmos tudo num único exemplo e não precisarmos nos estender pela hipocrisia anticorintiana). A mediocrização abutre da concepção de Futebol é massificada. E é mero jogo de cartas marcadas.
Enquanto isso exigimos a cabeça do técnico de rachão. Até do presidente. Quiçá até do presidente da confederação...
Todos meros bodes expiatórios do sistema criado. Nós torcedores já não podemos interferir na máquina de fazer dinheiro. Só o que fazemos é promover uma manutençãozinha paliativa desta máquina, e nisto tudo o próprio dinheiro se encarrega de lucrar – nele mesmo. É jogo de cartas marcadas.
Na teoria, e na prática, capital concentrado gera apenas alguns barões e uma massa sempre espoliada. Chegamos a um paradoxo tal, onde nossa expressão é mera manutenção do sistema, que já não adianta criar movimentos contra dirigentes, técnicos ou descompromissados. O sistema rendeu o Futebol e tudo o que ele representa. De tudo o que ele representa, a melhor e maior parte é a Referência Corinthians. A abutraiada fez todo mundo crer em ladainhas que por aqui estamos sempre a desdizer. Os mesmos descompromissados fingiam jogar – é a manutenção da máquina.
A voz do torcedor, a paixão do torcedor, isso tudo já desapareceu, uma vez que já foi posta em xeque pelo sistema. Virou moda no Futebol do mundo todo.
O preço do ingresso é a paga pela manutenção do sistema, quase igual uma taxa pelo seguro. Enquanto não compreendermos a complexidade desse paradoxo, continuaremos levando borrachadas por causa de latinha de cerveja atirada sobre carro blindado. E vendo vagabundo fingir que está jogando, com displicência e sem vergonha. E vendo cada vez mais juquinhas surgirem igual tiririca.
Certo é que, quando superada essa inconsciência, sobrevirão outras coisas que não apenas borrachadas.
ACORDA, FIEL!
Certo é que, quando superada essa inconsciência, sobrevirão outras coisas que não apenas borrachadas.
ACORDA, FIEL!
