E a máscara da gestão rachou. Os cacos caíram. A carne viva por trás dela se mostra, as pontas de cancro aparecem, e as palavras vindas com o mau-hálito da ressaca já não têm decoração. A prioridade posta no caminho mais curto para a possibilidade de participação na taça continental já é óbvia, e ainda temos um turno inteiro do modorrento campeonato de pontos perdidos. Ao mesmo tempo, a tal gestão passou o tempo inteiro incentivando, moldando e tirando o couro do "consumidor" Corinthiano, inchando o relatório anual, propagandeando-se. Mas a decisão por tal opção não pode ser anunciada, senão a máscara racha e cai. No entanto, é subentendida - e o "produto" é uma fraude de qualquer jeito.
Jogadores sem vontade, comissão técnica acomodada. São só reflexos. Só reflexos.
"O Corinthians é um vulcão japonês indormido. Ali fervem o sangue luso, um pouco dos mouros, a cimitarra árabe, a família dos macabeus, a espanholada que enriqueceu com cobre e zinco, os paulistas descendentes dos Alcântaras e dos Machados, e algumas ramificações do povo da Bota que encheram as noites do Bom Retiro de bandolins e pizzas napoletanas. Bote-se tudo isso num cadinho, mexa-se com fogo brando apaixonado, misture-se essa poção poderosa com o Povo Brasileiro, nós, e está feita a Explosão chamada Corinthians Paulista.
Como se vê, a receita é simples."
(Mestre Diaféria)
O Vesúvio entrou em erupção no ano de 79 da Era Cristã, nono dia antes das Calendas de Setembro, e a lua estava minguando.
O efeito devastador deste evento, que nunca havia sido igualmente descrito no mundo antigo, foi das coisas mais impressionantes já vivenciadas pela memória cristalizada em forma de História.
O relato sobre a tragédia foi escrito por Plínio, o jovem, e pareceu loucura a todos os antigos e medievos que tomaram contato com a peça. Descrevia um pinheiro gigante de fumaça e fogo que se expandia e era arrastado pelo vento, criando noite onde deveria ser dia. Tal "insanidade" foi comprovada pela ciência contemporânea, e pelas provas arqueológicas, depois de descoberta (literalmente) a grande ruína de Pompéia.
O tio-avô do jovem Plínio, chamado Plínio, o velho, considerava-se um acurado observador da physis, e teórico dos assuntos relacionados aos fenômenos naturais, de forma que, quando lhe foi apontado o que acontecia na outra ponta da belíssima baía, prontamente mandou preparar os navios para observar de perto.
Veja, o teórico foi ao fenômeno sem saber do que realmente se tratava, e dos perigos que corria, enquanto seu sobrinho permaneceu no domus descrevendo o que via. Naquele momento, todos admiraram a coragem do teórico, ao passo que o cronista ficou sendo ridicularizado pela posteridade - até que a realidade fosse colocada cabalmente.
O jovem escapou da tragédia e ainda pôde viver o suficiente para fazer carreira no Império. O velho morreu com os órgãos e o sangue carbonizado, quase instantaneamente, dentro da nuvem dilatada da erupção.
Guardadas as devidas proporções, com os "radicais intolerantes" Corinthianos ocorre o mesmo que com o jovem, enquanto os "acomodados" serão carbonizados pela erupção da "modernidade" e da elitização.
A 'História' ainda ridiculariza os primeiros e denota a "coragem" dos segundos.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
domingo, 1 de setembro de 2013
Memórias de um Ancestral
Aqueles tempos não eram fáceis, foi preciso muita união e coragem para enfrentar a segregação classista daqueles que por aqui já estavam assentados, com seus tentáculos agarrados e sufocando aqueles que sonhavam com uma vida de melhores condições, com os frutos do suor e do sangue do trabalho. Logo que cheguei a este país, tudo era novo, mas a exploração era a mesma. Quiseram que eu fosse um parceiro do fazendeiro, mas já conhecia o funcionamento e as artimanhas. De onde eu vim, há muitos séculos a coisa toda era assim. Por isso não me deixei levar à Hospedaria dos Imigrantes, e sabia de um patrício que vivia em boas condições num bairro afastado desta SanPaolo, lugarejo arborizado onde os passarinhos faziam sinfonia.
Este meu patrício conhecia todo mundo naquele lugar que bem chamaram Bom Retiro. Era o barbeiro do bairro, mas só fui entender que ele não era apenas isso quando conheci todos aqueles camaradas. Era um mundaréu de gente, o bairro todo movido em torno daquilo que chamavam protagonismo. O mesmo sonho de uma vida que todos tínhamos, todos nós que embarcamos num vapor e saímos de nossas terras. E ali estavam pessoas de todos os lugares que já ouvira falar, e de outros que não tinha noção que existia. Interessante é que, com tantas línguas, todos nós nos entendíamos, e cada um falava de sua própria maneira.
Cheguei numa noite fria, meu patrício estava doente, mas sabia que chegaria. Assim, me encaminhou para a casa de um camarada, já tinha arranjado tudo, e eu ficaria ali até arrumar-me. Este camarada estava reunido com uma dezena e tantas, e eles discutiam um movimento. Ali estavam camaradas de macacão sujo, de terno, uns jovens outros envelhecidos pelo labor, todos inflamados com uma idéia em comum.
Eles falavam coisas como evitar a violência da polícia. Levei pouco tempo para entender que aqui nesse país a polícia também reprimia, e eles queriam criar um time de futebol para poderem discutir o que precisavam sem que a polícia achasse tudo aquilo muito estranho, e começasse a bater. Já haviam perdido camaradas em outras oportunidades, assassinados em via pública, sob os olhos de todos. E não queriam mais que isso viesse a acontecer.
Passei pouco tempo na casa do Antonio, que logo me arrumou um trabalho e pude me arrumar. Aquele pessoal arrendou um terreno para fazer acontecer aquela idéia, a qual admirei muito, e prontamente aderi. Chegavam muitos patrícios e gente de outros lugares do mundo, e o Bom Retiro, com aquela idéia em marcha, agregava a todos. Éramos muitos, e já começávamos a dar nas vistas e na paciência de quem não nos aguentava assim, tão organizados. Com a escusa de sermos um time de futebol, articulamos com outros bairros a idéia, e em pouco tempo, posso dizer, estávamos na cidade inteira. E em menos tempo, em várias outras cidades. Outros times surgiram com o mesmo nome do nosso. Mas os lugares onde jogávamos não era o mesmo lugar onde a classe mais alta jogava. Por incrível que pareça, os bem-nascidos achavam que jogavam bola. Eu já estava casado, com o primeiro filho na barriga, quando o nosso time conseguiu a proeza de ir jogar na cancha dos ricos. Aquilo foi uma revolução de verdade. Não é possível imaginar realmente a cara de asco de quem era imbuído da segregação. Tanto que, com essa cara de asco, fugiram do nosso time. Mas nós alcançamos e nos vingamos pouco tempo depois. O tempo passa, e o destino acontece como deve acontecer. A ordem natural das coisas é respeitada pelo destino, e aquele time se tornou de fato um Clube. Construímos um estádio, com nosso suor e sangue. Adquirimos uma fazendinha. E crescemos de forma que o mundo nos conheceu.
E venho falar-lhes hoje, cento e três anos após minha chegada neste país, que toda aquela turma grande que encontrei naquela noite fria, não reconheceria o que criaram. Não pela grandeza, pois naquela noite esse destino estava previsto e foi selado, mas pelo propósito que impulsionou tudo isso, a idéia. Hoje nós não conseguimos mais ver onde está a idéia.
Ela só está nas cabeças de alguns, por incrível que pareça. E contra a própria idéia, igual os tentáculos agarrados, desvirtuam o propósito, dizem "quem manda aqui sou eu", acabam com a Sede Grandiosa que construímos com suor e sangue. E pretendem ficar ricos com o que acham que é uma máquina de fazer dinheiro. E criam versões para justificar essa tramóia, transformando esse nosso passado em historieta palatável. Não éramos cinco operários, éramos muitos e de diferentes origens e profissões; não éramos um time, mas um movimento. Essa domesticação da nossa história está justificando, nas cabeças dos que chegam, toda essa estapafúrdia enganação. Nem Antonio, nem Salvatore, iriam reconhecer, nisto que se apresenta hoje, aquilo que empenharam a própria vida.
Mas a Memória de um Ancestral não irá se apagar nunca.
"Algo vive tanto tempo quanto a última pessoa se lembrar dele"
Memória, como o fogo, é radiante e imutável, enquanto a História serve apenas àqueles que procuram controlá-la, àqueles que querem varrer a chama da Memória, para apagar o perigoso fogo da verdade. Cuidado com estes homens, pois eles são perigosos e ignorantes. A falsa História deles está escrita com o sangue daqueles que possam se lembrar, e daqueles que procuram a verdade.
VIVA O CORINTHIANS
NOSSO DE CADA DIA!!!
Este meu patrício conhecia todo mundo naquele lugar que bem chamaram Bom Retiro. Era o barbeiro do bairro, mas só fui entender que ele não era apenas isso quando conheci todos aqueles camaradas. Era um mundaréu de gente, o bairro todo movido em torno daquilo que chamavam protagonismo. O mesmo sonho de uma vida que todos tínhamos, todos nós que embarcamos num vapor e saímos de nossas terras. E ali estavam pessoas de todos os lugares que já ouvira falar, e de outros que não tinha noção que existia. Interessante é que, com tantas línguas, todos nós nos entendíamos, e cada um falava de sua própria maneira.
Cheguei numa noite fria, meu patrício estava doente, mas sabia que chegaria. Assim, me encaminhou para a casa de um camarada, já tinha arranjado tudo, e eu ficaria ali até arrumar-me. Este camarada estava reunido com uma dezena e tantas, e eles discutiam um movimento. Ali estavam camaradas de macacão sujo, de terno, uns jovens outros envelhecidos pelo labor, todos inflamados com uma idéia em comum.
Eles falavam coisas como evitar a violência da polícia. Levei pouco tempo para entender que aqui nesse país a polícia também reprimia, e eles queriam criar um time de futebol para poderem discutir o que precisavam sem que a polícia achasse tudo aquilo muito estranho, e começasse a bater. Já haviam perdido camaradas em outras oportunidades, assassinados em via pública, sob os olhos de todos. E não queriam mais que isso viesse a acontecer.
Passei pouco tempo na casa do Antonio, que logo me arrumou um trabalho e pude me arrumar. Aquele pessoal arrendou um terreno para fazer acontecer aquela idéia, a qual admirei muito, e prontamente aderi. Chegavam muitos patrícios e gente de outros lugares do mundo, e o Bom Retiro, com aquela idéia em marcha, agregava a todos. Éramos muitos, e já começávamos a dar nas vistas e na paciência de quem não nos aguentava assim, tão organizados. Com a escusa de sermos um time de futebol, articulamos com outros bairros a idéia, e em pouco tempo, posso dizer, estávamos na cidade inteira. E em menos tempo, em várias outras cidades. Outros times surgiram com o mesmo nome do nosso. Mas os lugares onde jogávamos não era o mesmo lugar onde a classe mais alta jogava. Por incrível que pareça, os bem-nascidos achavam que jogavam bola. Eu já estava casado, com o primeiro filho na barriga, quando o nosso time conseguiu a proeza de ir jogar na cancha dos ricos. Aquilo foi uma revolução de verdade. Não é possível imaginar realmente a cara de asco de quem era imbuído da segregação. Tanto que, com essa cara de asco, fugiram do nosso time. Mas nós alcançamos e nos vingamos pouco tempo depois. O tempo passa, e o destino acontece como deve acontecer. A ordem natural das coisas é respeitada pelo destino, e aquele time se tornou de fato um Clube. Construímos um estádio, com nosso suor e sangue. Adquirimos uma fazendinha. E crescemos de forma que o mundo nos conheceu.
E venho falar-lhes hoje, cento e três anos após minha chegada neste país, que toda aquela turma grande que encontrei naquela noite fria, não reconheceria o que criaram. Não pela grandeza, pois naquela noite esse destino estava previsto e foi selado, mas pelo propósito que impulsionou tudo isso, a idéia. Hoje nós não conseguimos mais ver onde está a idéia.
Ela só está nas cabeças de alguns, por incrível que pareça. E contra a própria idéia, igual os tentáculos agarrados, desvirtuam o propósito, dizem "quem manda aqui sou eu", acabam com a Sede Grandiosa que construímos com suor e sangue. E pretendem ficar ricos com o que acham que é uma máquina de fazer dinheiro. E criam versões para justificar essa tramóia, transformando esse nosso passado em historieta palatável. Não éramos cinco operários, éramos muitos e de diferentes origens e profissões; não éramos um time, mas um movimento. Essa domesticação da nossa história está justificando, nas cabeças dos que chegam, toda essa estapafúrdia enganação. Nem Antonio, nem Salvatore, iriam reconhecer, nisto que se apresenta hoje, aquilo que empenharam a própria vida.
Mas a Memória de um Ancestral não irá se apagar nunca.
"Algo vive tanto tempo quanto a última pessoa se lembrar dele"
Memória, como o fogo, é radiante e imutável, enquanto a História serve apenas àqueles que procuram controlá-la, àqueles que querem varrer a chama da Memória, para apagar o perigoso fogo da verdade. Cuidado com estes homens, pois eles são perigosos e ignorantes. A falsa História deles está escrita com o sangue daqueles que possam se lembrar, e daqueles que procuram a verdade.
VIVA O CORINTHIANS
NOSSO DE CADA DIA!!!
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