domingo, 14 de abril de 2013

A Memória

(Texto lido no "100 Anos" da www.radiocoringao.com.br, dia doze de abril de 2013)

Não é por acaso que determinada historiografia (termo científico utilizado para descrever a memória estabelecida, entre outras coisas) é esquecida por uma parcela ainda hegemônica da corinthianidade, que estão e andam esperando estar no comando para sempre.
Não é por acaso, pois o Corinthians é o único caso no esporte nacional que um movimento social assume um caráter revolucionário de fato - não apenas um caráter reformista - e chega às cabeças do Futebol, em particular, ainda que dentro de todas as contradições interiores e exteriores.
O esporte, e o Futebol em particular, são dimensões culturais da sociedade que expressam aspirações humanas ancestrais, e é dessa importância que falamos aqui. O Futebol é um reflexo da sociedade, e dentro desse universo estão as torcidas (as organizadas e também o conjunto autônomo de torcedores).
No caso do nosso Corinthians, o conjunto autônomo gerou e gestou o movimento social que se concretizou em Clube desportivo, e esse conjunto autônomo é autor de um processo histórico, cuja historiografia tem que ser esquecida segundo determinados propósitos.
O Corinthians é um caso isolado de um clube social abrangente e protagonista das mais variadas formas e etnias, e é o caso isolado de um clube social capaz de expressar e exprimir os anseios dos oprimidos, e vencer os opressores. E quem ler essa frase e pensar que se trata de bobagem, apenas por causa do mensageiro, vai ter de parar de pensar no Corinthians como Time do Povo, e parar de gritar que é maloqueiro e sofredor, e outros gritos do tipo, sob pena de poder ser taxado de hipócrita por essa mesmo maldito mensageiro.
O Corinthians de 1913 arrebentou a hierarquia.
O Corinthians de 1913 fez tremer os que se pensavam poderosos. Os que acreditam que podem deter qualquer poder sobre qualquer coisa.
Os desprezados socialmente, os insultados pelas condições, com o Corinthians arrancam as amarras sociais impostas, e em 1913 o Futebol viu esse espetáculo em seu próprio seio - e anseio.
O Povo através do Corinthians assume este suposto poder, em pé de igualdade com a elite, que vai tomar aulas e surras no Futebol, numa permanência histórica que se verá sempre, e hoje em dia, quando essas contradições interiores e exteriores se avolumam, colocando o Corinthianismo do avesso e de ponta cabeça. Não aqui no Bunker.
E 1913 é um exemplo perigoso que tem de ser ocultado, segundo determinados propósitos. Gostariam mesmo, os que têm medo, é que já tivesse sido apagado da História.
Do lado de fora da instituição o que fazem, como sempre fizeram, é transformar este exemplo em banditismo de ralé, e do lado de dentro identificam como algo que não permite apelo comercial. E em ambos os casos o pano de fundo é o argumento depreciativo, e quando não simplesmente ignoram o exemplo e suprimem, ocultam, da memória institucional, ele passa a ser apenas uma rebelião popularesca de ralé, dos desdentados, marginais - pois desse pseudo-argumento não se tira mais nada, pois ele pouco ou nada diz.
Diriam os teóricos: as classes dominantes riscam o povo da história. E apagam principalmente as lutas populares, tentando não deixar qualquer traço, especialmente uma luta popular que atinge o cerne de seu objetivo. 1913 vive.
É por isso que a falseada historiografia institucional, a serviço do avesso da "mercadologização", não diz absolutamente nada sobre março de 1913: ele vive, é preciso liquidá-lo.
Quem fala é Seo Antônio de Almeida, escanteado pela instituição ao longo do tempo, mas alçado à eterna lembrança pelas mãos de Mestre Diaféria. A fonte de Seo Toninho é Antônio Pereira, o fundador e ideólogo, a quem também se busca escantear institucionalmente, embora se possa usar comercialmente sua figura...
Esta falseada historiográfica sequer pretende explicar a própria História da instituição; quando muito busca ajustá-la mediocremente aos conceitos de quem está no comando. E assim há um abismo entre essa historiografia falseada e a realidade concreta, e suas necessidades ideológicas.
Institucionalmente, há tempos, o impedimento destes fatos e exemplos concretos, que foram iluminados academicamente pelo Professor Labriola ainda em meados de 1990, só favorecem quem ainda quer ver a instituição arruinada, alienada, ausente de consciência.
Assim como se falseia uma suposta neutralidade quando se faz qualquer ciência humana, querem te fazer crer que exista alguma mistificação em vitórias e conquistas - e 1913 mostra qual é a conquista e qual é o caminho do processo histórico real desta instituição.
Essa mistificação de conquistas só ocorre para que não seja preciso escancarar a História e seus fatos, possibilitando assim condicionar essa historiografia falseada e a não-interpretação da História dentro do resgate popular que está na base da origem do Corinthians, o que leva a um estado de submissão que expressa a contradição com o Corinthianismo. Tudo isso levando em conta a ocultação de março de 1913 nessa suposta historiografia, que é falseada, portanto.
A instituição ainda não aprendeu a interpretar a sua História, e esse é um problema que abrange a humanidade como um todo. O falseamento e a ocultação é um fenômeno particular por aqui. Mas a História do Corinthians é algo de mais complexo do que qualquer propaganda pode querer comunicar. Tem profundas raízes e não acontece por acidente, e nem à toa. No Corinthians nada é por acaso.
A grande arma de qualquer ser humano é seu próprio cérebro, que encontra munições no arsenal da História.
Se só se encontra uma historiografia falseada, a pólvora desse pseudo arsenal vai ser apenas pó e o cérebro não vai servir pra nada. Março de 1913 está aí para ser encontrado no site, ou não. Está latente para que seja pensado, ao menos neste Bunker.
Não adianta modificar, negar, perfumar, reciclar ou mentir fatos históricos. Quem não vê Março de 1913 não está capacitado para enxergar nenhuma estréia do Corinthians em campeonato paulista - e o que dizer da primeira conquista, invicta, que estará propagandeada em 2014 por conta de seu Centenário...
Mas é cada vez mais comum dar um pedaço para tirar todo o resto. Igualdade, pluralidade, são palavras já sem qualquer força no mundo do interesse. É por isso que este microfone (e este blogue...) é chamado de Bunker; a História do Corinthians é uma guerrilha, que tem o mais completo Arsenal à sua disposição. Que São Jorge nos ilumine sempre.