“... jogar no Corinthians é como ser convocado para a guerra irracional e jamais duvidar que ela é a mais importante de todas as que existiram.
É ser sempre chamado a pensar como Marx, lutar como Napoleão, rezar como Dalai Lama, doar a vida a uma causa como Mandela, e chorar como criança...
Jogar no Corinthians é adormecer com o filho querido, é sentir o pulsar de seu pequeno coração, é abreviar a dor quando ela se estabelece.
É saber o que é a sociedade no pleno sentido da palavra...
Nada se compara ao Corinthians nesta Terra chamada Brasil.
Aqui, japoneses, árabes, mongóis, siberianos, italianos, bolivianos, além dos nordestinos e até os originários de estados rivais se irmanam, dão-se as mãos, sofrem em comunhão, gritam em êxtase a cada vitoria por menos importante que seja, como se cada vizinho fosse mais que irmão, pai, mãe ou quem sabe, ele seja realmente um representante de suas famílias distantes ou ausentes, inventando uma nova e substituta, formando uma gigantesca rede de genomas humanos com o mesmo DNA.”
DOUTOR SÓCRATES
O Coringão completa 102 anos de muitas glórias e
muitas tradições em tudo o que se aventurou praticar, seja no plano desportivo,
seja no plano sócio-político.
Nenhum Clube neste mundo representa tanto o Povo ao qual
pertence, e nenhum é tão poliesportivamente vitorioso quanto o nosso
Corinthians.
O Corinthians não é apenas este clube militante em tantos
esportes, vencedor em todos eles, assim como não é apenas esta Torcida, cuja
denominação é o próprio conceito de Fidelidade.
A Torcida do Corinthians, aliás, é o princípio e a
finalidade, a Conclusão e síntese deste gigantesco projeto que chamamos
Corinthians.
Quando o primeiro presidente sentenciou celebremente que o
Corinthians é o Time do Povo e é o Povo quem faz o Time, empregou nela um
sentido que não é por acaso. Assim como nada é por acaso na História do
Corinthians.
E neste aniversário de 102 anos, cabe aqui uma
reflexão.
O que era aquilo que Miguel Bataglia assistia nascer, ao
mesmo tempo que criava e forjava, que o fez proferir tal sentença formadora,
explicativa, norteadora da identidade Corinthiana? Por que o Corinthians é o
Time do Povo, e é o Povo quem vai fazer o Time?
A anticorintiania doentia anda dizendo que o Corinthians deixou de ser e
de fazer. Ora, essa gente não entende o princípio ético que é o Corinthianismo, e ignora a
historiografia (os fatos) ao bel-prazer.
Enfim, todo esse questionamento está sendo elaborado aqui no
sentido de criticarmos o período presente, quando os 102 anos são completos,
este momento o qual passamos.
Criticar nesse sentido não é apenas apontar o dedo e dizer o
que está errado. Nem tampouco apenas escarafunchar defeitos, o que é muito
usual dizerem a partir desse senso comum anticorintianista, mas criticar não é
essa coisa medíocre.
A anticorintiania não consegue elaborar nada melhor do que
as rançosas afirmações negativas, expressão da mucosa de ódio que permeia a
cabeça e o coração dessa gente contaminada.
Não. Aqui teremos de elaborar essa crítica segundo o viés
sociológico-político e historiográfico do Corinthians; campos onde se pode
compreender racionalmente que nenhuma associação atuante em nossa Era (leia-se:
a partir de 1910) possui carga de luta histórica como o Nosso Corinthians.
Por isso estamos discorrendo aqui no cerne da identidade
Corinthiana. Para tanto devemos remontar minimamente a situação em que se
encontrava esta cidade, esta sociedade, no momento histórico da gestação do
Clube de Todos os Povos, para identificarmos as causas, os porquês, do
surgimento e da consolidação do Corinthians, segundo sua própria genealogia.
Temos então de pensar quem eram aquelas pessoas anônimas que se
empenharam na concretização de um sonho. Porque o Corinthians já existia no
sonho de um punhado de gente, antes que essa gente partisse para a ação direta
de criar e consolidar o sonho do Time do Povo.
E por que sonhavam com um Time do Povo? Lembre-se; nada na
História do Corinthians é por acaso.
Aquela década foi uma década de efervescência social e política.
A tecnologia principiava a pulsar, surgia o automóvel nas ruas, e o
Povo trabalhava quinze horas por dia.
Portanto, qual a principal efervescência política? As greves
trabalhistas. Ideologias contestavam o que se apresentava na Roda da História.
1907: uma greve que fez a rua ser encharcada de sangue. Trabalhadores
assassinados debaixo da cartola do patrão. E a polícia, servindo de milícia para a
aristocracia, passou a rechaçar qualquer amontoação maior que duas pessoas
conversando numa esquina. Se três macacões sujos de graxa se reuniam numa
esquina, a polícia deflagraria seu contra-ataque.
Eles não tinham mais onde se reunir.
As várzeas eram o terreno de lazer dos despossuídos. Se o
high society considerava aquelas partes da cidade insalubres, o Povo armava
toda sorte de ativismo cultural. Serestas, saraus, pic-nics, e claro, o
Futebol. Essa gente tinha apenas o domingo para se reunir e discutir política,
agora. As várzeas viraram o território camuflado, o Bunker. Dali saíram as
ideias que gestariam um Sonho.
Sonho que foi concretizado. Sonho que se sonha junto é
realidade. Realidade produzida pelas mãos, pela Alma, pelo suor e pela Vontade
do Povo.
Relatos do primeiro jogo do Corinthians, na Várzea da Lapa - e foi na velha Lapa que o Velho Corinthians, ainda moleque varzeano, principiou sua
História Futebolística (posto que sua História já houvesse começado muito
antes) - contam que uma multidão de dezenas de Corinthianos, e este era apenas o
primeiro jogo, saiu do Bom Retiro a pé, e chegou à Lapa cantando. Entre eles,
gentes de todos os povos.
Para ser Corinthiano com carteirinha, não seria observada
sua condição social, tampouco sua origem, nem seus credos. E o Corinthians foi a primeira e única associação de sua época a rezar em seu Estatuto Originário tamanha subversão.
O Corinthians é fruto opimo do protagonismo do Povo. A
Concretização da Utopia. E foi lá, na condição de Galo Varzeano, disputar sua
vaga no Futebol engomadinho da aristocracia, da Liga Paulista. A Revolução
aconteceu, e tem data: 30 de março de 1913. Ela completará um século no ano que
vem.
Neste momento o Futebol se viu de volta às mãos (aos pés) do Povo. O
Corinthians conseguiu isso por méritos próprios, por sua Bravura, e manteve
isso com a cara e a coragem, quando em 1915 a aristocracia resolveu que ia dar
uma rasteira e pulverizar aquilo que pensava ser um mero amontoado. O
Corinthians era o Campeão Invicto do campeonato de 1914. A elite havia fugido,
se refugiado num campeonatinho próprio, de apenas três clubes (vai ver está aí
a origem da sanha purpurinada de se chamar de tricolete, da madame).
Mas se não pôde disputar o campeonato, nem usar sua camisa
branca e seus calções pretos, a Resistência Corinthiana reafirmou a Revolução
de 1913 e concretizou, de fato e de direito, a Existência do Corinthians.
A ideia era clara: desmembrar o time, que não disputaria o
campeonato daquele ano e não veria nenhum dinheiro da renda dos jogos que não
teria. Faliriam o Corinthians e recolheriam seus despojos.
Mas o Povo tomou conta do que é seu. O Corinthians
sobreviveu para escrever sua hegemonia na década de vinte, quando o Futebol ratificou
a situação existente debaixo dos panos, que era o profissionalismo, nos anos
trinta. E então o Corinthians já era um Clube poliesportivo consolidado e
seguiria sua trajetória de lutas frente ao mainstream, de dentro do próprio
mainstream.
Foi ele sempre o que mais elevou as multidões. Foi ele
sempre o que mais aglutinou gente, das mais variadas origens. O Corinthians
ratificou, com sua Existência, a frase do primeiro presidente. É esta a
identidade Corinthiana.
Hoje em dia, portanto, nós somos a parte ativa, o carro-chefe
deste mainstream. Basta observar as ações de marquetim, e é este o ZeitGeist, o
espírito do tempo, dos nossos tempos.
Uniforme todo patrocinado, inclusive as
axilas; hoje em dia todos têm, e naquele momento todos zombaram do Corinthians.
Não que eu aceite este tipo de coisa, de jeito nenhum, mas os fatos têm de ser
observados.
As fotos 3x4 na camisa; teve um clubinho nazista que copiou.
Cinema; a madame não conseguiu deixar de imitar.
E esse estádio que se ergue a
todo vapor é um empreendimento do padrão do superbowl estadunidense.
Quer dizer; em 1910 o Corinthians é a contra-cultura, a
Revolução, e seguiremos sendo, pois é esta a seiva da Gigantesca Árvore chamada
Corinthians, cuja raiz é e segue sendo o Povo.
A transformação deve ser entendida pelo desdobramento das
ações da sociedade, pelo que se chama erroneamente de desenvolvimento, se quisermos carregar
essa ideia com a falácia do progresso.
Quando foi consumada a Revolução, o Povo entrou de sola na
cena futebolística perfumada da aristocracia; a lavadeira e o operário suados e
encharcados de fedentina de Povo, com macacão sujo da graxa das máquinas da
fábrica e do motor do trem, fizeram com que a aristocracia reacionária se
esforçasse por dar seu troco. Vem daí a anticorintiania doentia, mas também vem
daí a lenda de que aqui é o país do Futebol.
Não fosse o Corinthians, e não é exagero dizer isso quando
são observados os fatos, o Brasil não poderia ter popularizado o Futebol. Por causa disso tudo, a anticorintiania doentia se dissimulou em todos esses matizes que vemos hoje.
Pobre do Povo que não entende sua História, e me parece que
nem a anticorintiania, que é imersa no ódio gratuito, e nem boa parte da
Corinthianada, está entendendo as implicações de tanta carga histórica.
O Corinthians é instrumento do Povo e, o que está em
curso hoje, está apenas à sombra da luz que é o Corinthianismo. Que a sombra se esvaia no sopro da Luz, com a Força de São Jorge Guerreiro!
O CORINTHIANS SOMOS NÓS!
VIVA O CORINTHIANS
NOSSO DE CADA DIA!!!


